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Velejada de Vitória a Ilhabela (com escala!)

Thiago Barros Izoton
Sonhos não caem do céu. Esse, por exemplo, veio do mar.
Por Thiago Barros Izoton - aprendeu a velejar na Rajada e foi Ton, seu professor de vela que o indicou para Vilfredo.

Vitória, 18 de novembro de 2008

Manhã do dia 18. Toca o telefone insistentemente. "-Thiago! cadê você?!" Era o amigo Everton Campos, o “Ton”, referência da vela no Estado, trazendo as boas notícias. "- O Aysso está em Vitória e o Vilfredo está procurando tripulante! Se quiser ir, é a sua chance! Liga para ele logo!"

Naquele momento, ainda letárgico por não ter tomado cafe-da-manhã, buscava uma razão maior que me impedisse de participar dessa "loucura" toda. Mas foi em vão, pois o coração já tinha decidido. A aventura me chamava!

Conheci Vilfredo Schürmann à tarde, um sujeito simples e prático, sem tempo a perder em busca daquilo que quer e precisa resolver. Logo fiquei sabendo que Heloísa estava em terra cuidando de outros planos e não iria participar conosco do trecho entre Vitória e Ilhabela. Assim seríamos apenas os dois tripulando e não tínhamos tempo a perder em busca de peças de reposição e outros materiais para o barco.
Com tudo resolvido e de volta ao Iate Clube, fizemos minha carteira de tripulante e fui conhecer a casa da Família Schürmann, o famoso 'Aysso'. Pronto, agora era oficial, tinha entrado para o time, mesmo ainda sem acreditar muito bem no que estava acontecendo.

19 a 22 de novembro de 2008

Dias de arrumação da "casa". Secar o que estava molhado, trocar óleo, encher botijas de gás, lavanderia, etc. Tudo isso ao comando do mestre Vilfredo e seu bom humor característico, que aqui ou ali entre uma tarefa e outra trocava uma experiência, enquanto eu, aprendiz, com olhos e ouvidos de criança, absorvia o que conseguia, e ia me familiarizando com o ritmo próprio dessa vida náutica.

Realmente, é verdade o que dizem, "no mar não tenha pressa". Continuamos na marina durante alguns dias esperando a passagem de uma feroz frente fria que trouxe muita chuva e destruição à alguns Estados do país. De fato, fazia muito tempo que eu não via tanta água. As previsões meteorológicas não eram boas e logo as notícias começaram a chegar trazendo números alarmantes de desabrigados, principalmente em Santa Catarina, e enquanto tomávamos a decisão de adiar nossa saída, Vilfredo movimentava com maestria toda uma logística de transporte de doações.

Com a saída adiada tive a chance de ir em terra visitar alguns amigos, e o foi curioso perceber que eu já estava mais reservado, em outra freqüência. Os assuntos cotidianos perdiam a graça, e um sentimento de paz me envolvia. "-Essa tranqüilidade toda é por causa do iodo da água do mar!" dizia o mestre, destruindo meu momento poético.

Força 7!
23 de novembro de 2008

Finalmente partimos de Vitória, pela manhã, após quatro dias de espera, e eu louco para ver aquelas velas em ação. Meu pai, Clementino Izoton, experiente voador de paraglider no Estado e convidado por Vilfredo a ser nosso marinheiro de primeira viagem, com muita febre e mal estar, acabou por desistir da aventura. Ainda bem. O mar estava de ressaca, com um "mau humor" de 2,5 a 3,0 metros, enquanto o vento sul ainda soprava forte.

No través de Guarapari, umas 20 milhas mar adentro, pegamos o mau tempo de frente. A chuva horizontal de 30 nós fazia arder meus olhos pela lateral dos óculos escuros, enquanto as roupas frias e úmidas incomodavam um bocado. Tudo dentro do Aysso, por mais organizado que estivesse resolveu se espalhar pelo chão. Mareado naquele sacolejo todo, precisei recorrer algumas vezes ao "Wilson", apelido carinhoso dado ao balde.

Em determinado momento uma onda nos alcançou por bombordo (que é o lado do coração) e nos fez adernar de uma forma que eu não havia visto num barco daquele porte. Naquela hora o Capitão estava no leme enquanto eu estava deitado sob a cobertura externa. A onda lavou o convés e se não fosse a grande inclinação, o cockpit teria virado uma piscina. Na verdade, foi uma bela cena... De surf.

Mais adiante, o destino nos pregou mais uma peça: cheiro de queimado! Tivemos um problema no motor. A fiação da ignição esquentou demais e houve um curto circuito, produzindo muita fumaça dentro da cabine. De onde estava, curei o enjôo restante no salto que dei ao assumir o timão, enquanto o mestre descia para vencer o fogo. Com manobrabilidade restrita às velas e sem parte do sistema elétrico, mudamos o curso para Arraial do Cabo, local mais próximo e sem muito tráfego de navios, onde poderíamos nos abrigar com segurança até consertar o defeito.

Durante a madrugada o mar acalmou e nossa mudança de rumo aproveitou o vento de popa, fazendo a viagem ficar muito mais tranqüila. Parafraseando o Capitão Vilfredo, "Barco é assim mesmo..."

Recepção Calorosa
Arraial do Cabo, 24 a 27 de novembro de 2008

Pela manhã, avistando Arraial, fomos recebidos por um brincalhão grupo de golfinhos que rodeavam o Aysso e nos acompanharam até a boca da baía. Pedimos ajuda à operadora de mergulho da região para nos receber com um barco de apoio, pois estávamos somente com propulsão à vela.

Para nossa surpresa, além da recepção, fomos filmados e acabamos aparecendo na mídia local durante nossas manobras para ancorar. Durante o corre-corre, levei um tombo engraçado que por minha sorte acabou não sendo filmado! Coisas de marinheiro apressado...

Durante os quatro dias em que ficamos por lá, coisas interessantes aconteceram enquanto aguardávamos as peças de reposição e o próprio conserto do barco. Perdemos uma das nossas âncoras, provavelmente por outro cabo ter rompido o nosso, e ficamos “pendurados” por apenas uma a poucos metros das outras embarcações, enquanto curiosos Atobás nos assistiam. Ufa!

Com a previsão de mau tempo se aproximando, vários barcos vieram se abrigar na pequena baía onde estávamos incluindo um grande veleiro, o "Atrevida". Branco, clássico, impecável, parecia um cisne, com seus 90 pés de comprimento e um bocado de velas. Iria participar da regata de clássicos ali perto, em Búzios. Recebemos, também, visitas de fãs dos Schürmann que ficaram sabendo pelas notícias locais da nossa estadia forçada. É muito interessante como o exemplo da Família desperta a admiração e carinho das pessoas por onde quer que passem.

Finalmente, à tarde, depois de consertado o motor de arranque e parte do sistema elétrico, estávamos prontos para sair, mas não antes de surgir um 'mau contato' que nos segurou por mais umas duas horas, suficientes para nos despedir dos vários amigos que fizemos e que estavam à bordo.

Deixando Arraial do Cabo, eu numa ligeira crise de saudade, perguntei ao Capitão como ele fazia para administrá-la. Sua resposta veio simples e eficiente: "-Pense nas coisas boas que estão por vir!"




Mais uma vez, Vitória!
28 de novembro de 2008

O mar liso e o vento forte de popa nos fez chegar rápido ao través da cidade do Rio de Janeiro, presente apenas no rádio e iluminando a noite calma, lá do horizonte a boreste. Fiquei horas no timão conduzindo com prazer a "Nave" e ouvindo boas músicas sob aquele céu ora estrelado, ora chuvoso.

Pela manhã, restando umas 80 milhas para chegarmos a Ilhabela, o sol próximo ao horizonte dava à água uma coloração roxa, criando um fenômeno impressionante, que infelizmente não era capaz de ser registrado pela maquina fotográfica. Talvez mais um dos truques desse “marzão” anil misterioso.

O único contratempo que tivemos, foi uma calmaria que fez com que nossa velocidade caísse para apenas 3,0 nós, e aí não adiantavam nossas belas “asas de pombo” - prosseguimos a motor no restante do caminho. Restando cerca de 30 milhas, a primeira massa de terra que avistei foi a ilha de Vitória e seu farol que nos dava boas vindas. Realmente uma vitória e uma feliz coincidência.

Chegamos à noite em Ilhabela, capital da vela no país, que além de ótima infra-estrutura possui um vento forte e constante.

Depois de algumas horas na escuridão do canal, entre a busca da poita (ponto de ancoragem), amarração e organização do barco, exaustos, fomos dormir. Concluí que me faltou um pouco de força, jeito e alguns calos, mas não me faltou vontade!






Ilhabela, 29 e 30 de novembro de 2008

Mãos cortadas, dores nas costelas e uma ótima noite de sono depois, era hora de me despedir do Aysso, que nos trouxe com tanto zelo enfrentando a frente fria e o mar de ressaca, e ia ficando para trás enquanto seguíamos no bote em direção à marina.

Na saída do Iate Clube estava Heloísa, que fui conhecendo com pressa entre uma palavrinha ou outra durante a correria natural dessa família. Compreendi o sentido do apelido - 'Formiga' - sempre resolvendo as coisas de forma rápida a passos curtos e ligeiros. Realmente uma pessoa encantadora, com suas belas histórias e seu apurado senso de preservação ecológica.

Fui generosamente acolhido pela Família e até ganhei uma carona para São Paulo. No caminho, dentro da balsa em direção ao continente, fui olhando a bela Ilhabela ficando para trás. Mas dessa vez, ao invés de ficar preso àquela saudade, segui o conselho de Vilfredo e passei a pensar nas grandes aventuras que estavam por vir.

O que fica?

Fica a imensa admiração pela coragem de seguir o sonho, caráter e estilo de vida da Família Schürmann. Fica o exemplo a ser seguido de comprometimento social e a luta por um ecossistema saudável. Fica a gratidão infinita de ter feito uma pequena parte disso tudo, através do convívio e da arte de velejar, e também a certeza de levar comigo um pouco dessa sabedoria toda.

Obrigado ao Capitão Vilfredo e a Família Schürmann!



*Agradecimentos também aos amigos que tanto nos auxiliaram durante a estadia em Arraial do Cabo!

Para mais vídeos, fotos e informações acessem os sites:
http://www.100pctarraialdocabo.com.br
http://br.youtube.com/watch?v=9fT53rTZgco
http://br.youtube.com/watch?v=uIyFPZGmMBM











   
Escola de Vela Rajada - Clube Libanês - Vila Velha/ES
(27) 9275-7397 - escolarajada@escolarajada.com